Fogo fátuo
Os escritores são as pessoas mais vaidosas do mundo. Falam imoderadamente da sua produção, quais pais neófitos de filhotes recém-nascidos. A propósito de tudo e de qualquer coisa, lá vem a menção ao último volume, nem que este seja mera compilação de artigos publicados no quadro de pequenos anúncios do supermercado local. Os escritores são, também, as pessoas que menos vale contactar para prestar testemunho sobre algum grande vulto falecido. Porque acabam sempre a falar de si próprios, o vulto mero reflexo da luz natural do escritor.
Sem mais:
Jornalista: Maldonado Só, foi amigo do falecido Vulto durante mais de sessenta anos. Na sua opinião, que fica dele para a posterioridade?
Escritor Amigo do Vulto: Foi um companheiro de todas as horas, Ester. Aliás, quando escrevi o meu Manual Ilustrado de Catequese para Aborígenes, foi ele o primeiro a dizer-me Maldonado, amigo, tu tens o domínio da palavra como poucos missionários oriundos do Baixo Alentejo! O que me incentivou imenso para avançar com o meu segundo livro, Aventuras de Duas Cabras e Três Ovelhas à Sombra de Uma Azinheira que já não Sabia a Idade, com o qual vim a ganhar o prémio Pastorícia-69, atribuído pela Ordem dos Veterinários, aliás um galardão de enor…
Jornalista: Foram, creio, colegas de escola?
Escritor Amigo do Vulto: E de carteira, Ester, e de carteira! Aliás, por causa disso, há um episódio engraçado: quando o Expresso me dedicou um suplemento para assinalar o cinquentenário da publicação do meu primeiro volume de poesia, Caracol ao Sol com Cachecol, o que aconteceu em simultâneo com a atribuição do seminal prémio Tio Mais Prolífero do Vácuo Arquitecto não Praticante, o ora falecido ofereceu-me uma carteira em forma de carteira! Fiquei, naturalmente, desvanecido, até porque já tinha homenageado esses tempos de infância na minha trilogia, Memórias de Uma Mesa Mal Comportada, que - convém relembrar - foi a primeira trilogia portuguesa traduzida em celta. Uma língua tão melódica e…
Jornalista: Visitou-o muitas vezes, nestes últimos anos de retiro e doença?
Escritor amigo do Vulto: Sim, Ester, e mesmo no Natal passado, estava eu muito ocupado com o lançamento e promoção da obra, a minha mulher, Meadhbah, foi oferecer-lhe um exemplar autografado de O Mistério do Bolo-rei com Duas Favas, a minha incursão pelo romance policial negro, género que manifestamente já não é menor, aliás em Dezembro sairá um segundo volume, O Mistério do Coscorão sem Ovos, que o meu editor considera um verdadeiro Falcão de Malta, estamos em negociações com uma produtora americana para o filme, Steve Buscemi manifestou interesse no papel de coscorão…
Jornalista: Foi o depoimento de Maldonado Só, o escritor que privou com o Grande Vulto desde a infância e nos pintou um retrato na primeira pessoa do homem que hoje desapareceu, deixando o país mais pobre. Iremos de seguida ouvir o sempre prestimoso depoimento do Dr. Mário Soares, que não conheceu o Vulto, mas chegou a avistá-lo ao longe, envolto em bruma, quando ambos viviam em Paris, no princípio dos anos 70.
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